segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O QUASE

No post "O AMIGUINHO" eu disse que eu não costumo apresentar minha filha para os caras que aparecem em minha vida.
Pois então. 
Nessa história vocês saberão que eu de fato não apresento ninguém para ela.
Mas nada impede dela me apresentar...
Aqui no interior temos poucas opções de programas para o fim de semana. Uma dessas opções, e talvez a mais cogitada pelas pessoas daqui, é o Mercadão. 
Trata-se do Mercado Municipal da cidade, que durante a semana serve para o fim a que veio, mas de Sábado (Domingo não abre! rs!) torna-se uma pequena competição de qual comerciante consegue fazer a melhor baladinha diurna para os inúmeros frequentadores que lá vão. E por começar durante o dia, vão para lá os solteiros, os casais, as turmas de amigos ou as famílias com suas crianças. 
Por isso naquele dia minha filha estava comigo.
Sempre digo a ela que ela não pode conversar com quem não conhece.
E foi por isso que ela veio até mim e disse:
"Mamãe, preciso te apresentar meu novo amigo, para que ele não seja mais um estranho!"
Ela me apresentou o QUASE. 
Ele era lindo!!! De verdade. Loiro, olhos azuis, corpo magro mas definido. Tinha todo um estilo, que era uma espécie de hipponga chic. Estava usando uma regata, bermuda e um chapéu. Depois tivemos oportunidade de tirar fotos juntos, e eu mostrei para alguns amigos que sempre diziam: "Caraca! Que homem lindo!"
Acho que minha filha se aproximou dele por duas razões: a primeira é que ele era de fato muito parecido com o pai dela, (parecido eu disse, mas bem mais bonito, acreditem!) e a segunda é porque ele tinha uma comunicação incrível com crianças... ou com ela, especialmente.
Quando percebemos ele já estava sentado na nossa mesa, onde estávamos eu e a família do pai de minha filha. E foi a minha sogra (Que fique claro que não existe ex-sogra, viu gente? O negócio é acumulativo!) que o convidou para terminarmos o happy hour na casa dela, como de costume. E ele foi.
Ficamos lá, todos reunidos, conversando e dando risada.
Ele tinha logo de cara um jeito todo envolvente. Beijou todas as mulheres da família com um beijo na mão, o que deixou todos os homens de lá absolutamente enciumados e cheios de críticas ao estranho!
E como provocou o encantamento nas mulheres, assim o fez com minha filha, que não conseguia deixar de expressar a imensa felicidade por ele estar lá.
Ela disse: "Mamãe, você pode casar com ele?"
E ele deu uma risada saudável e explicou de uma maneira simples que eu não tive capacidade de fazer naquele momento: "Primeiro sua mamãe precisa me conhecer melhor, tá?"
E teve a sensibilidade de esperar ela dormir para ir embora.
Como ele não tinha carro, ofereci para leva-lo embora. Ele não aceitou, disse que gostava de andar e que iria á pé. Por isso só o levei até o portão.
E lá ele me beijou.
Nos beijamos, aliás. 
Nos beijamos por muito tempo e eu sabia que na cabeça dele também se passava a frase: Essa química é rara de acontecer! Muito rara!
E por isso foi muito difícil pararmos de beijar. MUITO DIFÍCIL!! Mas paramos, e ele foi embora.
Depois disso passaram alguns dias, e durante esse tempo minha filha não parava de perguntar dele. E eu também não conseguia parar de pensar nele. Por isso resolvi passar na frente da oficina onde ele disse que o pai dele trabalhava, peguei o telefone e liguei.
Quando pedi para falar com ele não sabia que ele tinha o mesmo nome do pai. E comecei a conversar com o pai dele achando que era o próprio. O pai dele só me esclareceu o engano quando eu disse que a pequena não parava de perguntar dele: "Na verdade aqui é o pai dele. Desculpe não ter dito antes. Mas só de saber que existe uma criança por trás dessa história já fico feliz! Olha, se você conseguir chegar no coração dele de verdade eu vou te agradecer muito! Você pode encontrar ele no Mercadão. Ele não sai de lá! Não faz nada na vida... desde que saiu do hospital!"
E então o pai dele me explicou tudo. O Quase era um cara muito bacana, popular, tinha namorada, era forte, trabalhava e praticava esportes. Mas então sofreu um acidente de moto. Ficou em coma por 10 meses, e quando voltou não quis mais compromisso com nada na vida.
De fato o encontrei no Mercadão. E assim que nos vimos ele veio e me deu um selinho. E disse: "Não consegui parar de pensar em você!".
Falei sobre a minha pequena e ele quis vê-la. O reencontro dos dois foi pura alegria. Ela o convidou para ir até a nossa casa assistir ao "Pequeno Pônei" e ele disse: "Adoro o Pequeno Pônei!! Vamos agora!".
E foi, e em nenhum momento se queixou do programa de giríco em que tinha se enfiado!
Novamente ficamos, porque seria impossível não nos beijarmos. E isso aconteceu, obviamente, sem que a minha filha visse.
A partir de então, sempre que eu queria ver o Quase sabia que ou ele estaria no Mercadão, ou em frente a uma casa, sentado na escada, acenando para cada carro que passava e que ele conhecia.
Quando ficamos juntos sozinhos pela primeira vez, eu já sabia que ele não seria uma pessoa que eu poderia encarar um relacionamento de verdade. Mas eu simplesmente não conseguia evitar a atração eu que sentia!
Nessa primeira vez, assim que ele chegou em casa, disse que queria ficar mais a vontade.
Fui para a cozinha, para pegar alguma coisa pra gente beber, achando que ele estava se referindo a tirar os sapatos. Mas não!
Ele me aparece na cozinha com aquela espada á mostra!
E gente, eu juro! Era uma espada enorme!! Só ele naquele estado é que uma pessoa poderia dimensionar o tamanho daquela coisa!! A tatuagem (sim, pessoas, estou falando de uma tatuagem!) era essa espada ninja que ía do mamilo até a coxa, próximo ao joelho. Então eu vi essa espada e levei um susto!
E também levei um susto pela intimidade imposta por ele assim, como se nos conhecêssemos há anos.
Lembro que em um momento de carinho eu passei a mão na cabeça dele e senti a deformidade do acidente. Não dava pra ver, só para sentir. Mas ele não falou a respeito.
Sempre que nos encontrávamos ele vinha e me pegava no colo, estivéssemos nós onde estivéssemos, estive eu ao lado de quem quer que fosse. Ele me bancava, da maneira dele.
Lembro de duas frases muito significativas. Uma foi "Se eu quisesse de fato construir uma vida perfeita com alguém seria com você e com a pequena!" e a outra foi quando um dia eu tinha ido dar comida para minha cachorra e ele ligou para alguém e eu ouvi: "Você já conseguiu meu doce?". Quando eu o questionei sobre o doce que ele estava usando disse que não era LSD, como eu estava pensando.
Sabia que era, mas fingi que tinha acreditado nele.
Foi quando eu voltei a roer minhas unhas. Antes disso elas estavam enormes, esmaltadas, uma beleza!
O tempo foi passando e o comportamento dele foi ficando cada vez pior. Sempre que eu o encontrava ele não conseguia mais conversar naturalmente.
E sempre que minha pequena o via eu não podia mais deixar que ela chegasse perto dele, porque ele estava muito louco!
Expliquei para ela que ele estava doente, que estava se drogando muito.
E ela só disse: "Que pena, Mamãe. Espero que ele sare logo e que ele não fique feio e banguela que nem a Amy Winehouse."
Da última vez que eu o vi ele estava sentado no chão conversando com uma parede.
Esse fim de semana soube, por uma amiga em comum, que a irmã dele disse que a família não sabia o que tinha acontecido com ele, que ele tinha desaparecido. Que já tinham o procurado por todos os lugares.
Ele simplesmente desapareceu.
Ele me dizia que um dia ele pegaria uma carona na estrada e iria embora para o Sul.
Espero que seja isso que tenha acontecido. De verdade.
Espero que ele não tenha acabado como a Amy.
Peço desculpas a todos vocês que acompanham o blog e que adoram as histórias por elas serem sempre divertidas.
Acho que essa não foi o caso.
Acho que é porque não poderia.
É sempre triste ver alguém que se perde e não acha o rumo de volta!