Por causa desta história fiquei absolutamente cotoca de unhas.
Já o conhecia há alguns anos. Ele era ex marido de uma amiga, mas na
realidade nunca fomos de fato próximos. Depois da separação deles perdemos
contato.
Muito anos se passaram até o reencontro, que se deu de forma virtual.
As nossas primeiras conversas aconteceram de maneira despretensiosa e eu
confesso que até me espantava com o tamanho do carinho que ele dizia sentir por
mim.
Conforme o tempo foi passando, os bate papos passaram a durar horas...
também trocamos telefones, e a coisa toda fluia como um rio sem pedras.
Ficamos nessa por um bom tempo.
Um dia, em uma visita a São Paulo, decidimos nos encontrar.
Fomos a um café na Zona Sul.
Quando o encontrei fiquei ainda mais embasbacada...Não me lembrava dele
tão bonito! Um homem maduro, e estava absolutamente bem vestido para a noite de
frio que fazia. E cheiroso. Escolheu para mim o chocolate que eu deveria beber.
Era divino. (Agora estou falando do chocolate!)
Conversamos numa atmosfera quase sensual.
Eu também estava me sentindo no mínimo interessante naquela ocasião.
Nos despedimos com um forte abraço, desses que você fica sentindo o outro
e poderia ficar ali caso o mundo fosse terminar em trancos e barrancos.
No dia seguinte o tom da conversa já era outro.
Eu estava em um trabalho e nas minhas pausas, entrava na internet para
poder falar com ele. E ele me dizia coisas como: “Fui dormir ontem com seu
cheiro”, “preciso te ver de novo”, “Pequena, como você é linda...”
As piadinhas com conotação sexual estavam quase pulando das telas de nossos
computadores. Não podíamos mais esperar.
Então nos encontramos novamente, dois dias depois do nosso primeiro
encontro.
Desta vez em um barzinho na Zona Sul. Charmoso... o barzinho. Ele também,
não podemos tirar seu mérito!
Desta vez ele escolheu a cerveja.
Não sou muito fã de cerveja preta, mas estava frio, então achei que
poderia ser uma boa pedida!
Depois de algumas, vendo que o flerte não desenvolvia, eu, como uma
mulher de atitude que sou, (e volto a dizer que ainda não sei se isso é uma
vantagem!) peguei em sua mão e fui me aproximando lentamente de seu rosto, com
um sorriso disponível, e quando eu estava pronta para beija-lo, ele suavemente
disse: “Não faça isso!”
Por alguns segundos tive uma sensação de surdez!
Só consegui perguntar: “Oi?”
Ao que ele repetiu: “NÃO FAÇA ISSO!”. Desta vez em tom mais lento, quase
explicativo.
E então, vendo que de fato não era para beija-lo, fiz a pergunta certa: ”Porque??”
E ele não me explicou. Disse apenas que ele já tinha ficado com uma amiga
e que o caso não tinha dado nada certo. E eu ali, sem entender, comecei a
perguntar coisas para ele, que devido a situação eram perguntas bastante
honestas e coerentes, ao meu ver. E já que éramos amigos, aí sim é que eu me
dava ao direito de perguntar. “Eu entendi errado?”, eu perguntava. E ele não me
respondia. “Eu fiz alguma coisa?”, e ele não me respondia. E quanto mais eu
perguntava, menos ele me respondia. E ele foi ficando irritado. E eu resolvi
reverter a situação. Lembro-me claramente de dizer: “Quer saber, deixa isso pra lá. Se você não
quer me explicar eu não vou ficar querendo entender. Vamos curtir a noite que
foi para isso que viemos!”
E aos poucos o estranhamento foi indo embora e a gente voltou a dar muita
risada, a conversar, a brincar, como se nada tivesse de fato acontecido.
E continuamos na cerveja preta no barzinho da Zona Sul.
Ele tinha no lugar alguns amigos que lá trabalhavam, e logo eu já estava
integrada na turma. No fim da noite o bar fechou, mas continuávamos lá dentro,
os novos velhos amigos, eu, no colo dele, batendo papo. Uma amiga (nossa?) perguntou
se eu era sua namorada. Com o grau etílico no nível onze, considerando uma
escala de zero a dez, respondi prontamente: “Ele não me quer!”. Ele rapidamente
corrigiu: “Como não quero? Você está aqui, no meu colo, comigo!”
Quando todos resolveram ir embora ele disse: “Dorme comigo?”
“Onde você mora?”, perguntei sei lá porquê.
Ele: “Zona Sul”.
Na minha cabeça alterada pela cerveja preta a Zona Sul era um bairro...
não uma zona de São Paulo. Na verdade, não era essa a minha preocupação... Eu
queria sim ir dormir com ele. E fui.
Não me lembro do caminho, lembro que demoramos muito para chegar.
O que aconteceu a seguir é bastante íntimo, mas eu não contaria se não
fosse igualmente bizarro.
Fomos ao seu quarto. Eu fiquei quase comedida, apenas de calcinha e
sutiã. Ele de cueca.
Ele me mostrou seu livro de cabeceira. Desses que a gente lê e relê ao
longo da vida. Acho que lemos um pouco do livro. Buda. Ou Gandhi. Algo do
gênero.
Deitamos e ele disse: “Podemos dormir de conchinha?”
O que mais uma mulher poderia querer depois de uma noite de amor????
Só o que eu não sabia é que quando ele me pediu para dormir de conchinha
era exatamente isso que ele queria fazer: DORMIR.
Eu deitada, de conchinha, abraçada, praticamente dançando “A nova loira
do Tchan é linda, deixa ela entrar...” ao que ele diz suavemente no meu ouvido
(sim, ele me castrava de maneira suave!): “Shhhiu, shhhhiu, fica quietinha e
dorme!”
Fiquei indignada! Indignada! Indignada!
Levantei e fiz uma cena. E ele sorria e dizia com uma calma absolutamente
irritante, até para quem estivesse sóbrio: “Tinha que ser geminiana, né? Vem
cá, vem... vem dormir quietinha aqui comigo...”
Eu falei que ía embora. Mas não fazia ideia de onde eu estava. E devia
ser muito tarde. Eu só sabia que estava na Zona Sul. Numa Zona Sul muito longe
de qualquer Zona Sul que eu conheça até hoje.
Dormimos. De conchinha, pasmem!! Eu extremamente magoada e regeitada. Em
estado catatônico!
Tivemos uma noite terrível. Nós dois passamos muito mal.
Hoje sei que mais do que a cerveja preta, o mal estar se deu principalmente
pela situação constrangedora e humilhante.
No dia seguinte eu ainda estava catatônica. Ele me pegou no colo, mais
uma vez, enquanto eu esperava um taxi, e disse: “Pequena, você é uma mulher
incrível! Eu amo você! Não vamos demorar para nos vermos de novo!”
Nos falamos depois mais algumas vezes, primeiramente com muito
ressentimento de minha parte, e posteriormente com uma certa irritação da parte
dele, creio eu. O fato é que meu espírito sarrista me impediu de leva-lo a
sério para sempre. Sempre que conversávamos eu não podia deixar de fazer uma
piada bastante cínica sobre aquela situação.
Ele nunca me explicou o porquê daquela crueldade. Porque sim, até hoje
acredito que seduzir alguém para menospreza-lo depois é puramente uma crueldade.
Depois disso fiquei muito tempo desacreditada de mim. Tinha certeza de
que era muito feia e mais que isso, nada desejável. Demorei muito, muito tempo
para me recompor.
Mas me recompus. E conclui:
1-
A Zona Sul é enorme. Da casa dele ao meu destino,
que também era na Zona Sul, eu gastei 50 reais de taxi.
2-
Não interprete livros de cabeceira de maneira
equivocada.
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